O Brasil enfrenta o risco de um descompasso entre a capacidade produtiva de biocombustíveis e as metas ambientais estabelecidas para a próxima década. O alerta foi consolidado em estudo inédito divulgado pela Confederação Nacional da Indústria sobre o mercado nacional de energia.
A expansão da demanda projetada exige investimentos vultosos que continuam sem garantias de financiamento no setor privado. Consequentemente, a falta de ampliação industrial pode provocar restrições no abastecimento e pressionar os custos ao consumidor final.
Déficit de CBIOs no RenovaBio e o repasse direto para os postos de combustíveis
Um dos pontos mais críticos do relatório envolve o cumprimento das metas do programa RenovaBio pelas distribuidoras de combustíveis. As empresas precisam adquirir Créditos de Descarbonização emitidos a partir da venda de produtos certificados para neutralizar emissões.
A projeção da entidade empresarial indica um déficit potencial no mercado que começará em cerca de quatro milhões de certificados. Até 2035, a escassez pode atingir a marca de quinze milhões de créditos no sistema nacional.
A oferta insuficiente de títulos tende a provocar a valorização expressiva dos custos de aquisição pelas distribuidoras. Como resultado, o encarecimento das obrigações regulatórias deve ser repassado para o preço final cobrado na bomba.
Etanol e o gargalo entre a capacidade instalada e a produção efetiva das usinas
A demanda projetada para o etanol pode alcançar a marca de quarenta e seis bilhões de litros ao ano até 2035. No entanto, para compensar o déficit total de créditos ambientais, o consumo precisaria atingir sessenta e um bilhões de litros.
O parque industrial brasileiro possui capacidade autorizada superior a cem bilhões de litros anuais em suas instalações. Apesar disso, a taxa média histórica de utilização das usinas gira em torno de apenas trinta e cinco por cento.
A sazonalidade da safra de cana-de-açúcar e a disponibilidade de matéria-prima limitam o aproveitamento total das estruturas fabris. Além disso, a arbitragem das usinas entre a produção de açúcar e biocombustível reduz a previsibilidade do abastecimento.
Transição energética e o risco de inflação no frete rodoviário e nos alimentos
A frota nacional depende do biodiesel para a movimentação do transporte rodoviário de cargas em todo o país. Nesse sentido, a eventual escassez do insumo renovável afeta a competitividade da indústria e encarece o frete do agronegócio.
A elevação do custo logístico gera pressões inflacionárias diretas sobre o preço dos alimentos na mesa da população. Por isso, a consolidação da matriz de transportes requer coordenação entre incentivos tributários, financiamento e infraestrutura.
A CNI defende a revisão das metas indicativas para alinhar as exigências ambientais com a capacidade real de investimento. Portanto, o ajuste regulatório permanece essencial para evitar um colapso de oferta e garantir a sustentabilidade econômica do país.
Resumo analítico
- Apagão ambiental: O estudo da CNI alerta para o risco de escassez de biocombustíveis e alta de preços por falta de investimentos produtivos até 2035.
- Impacto do RenovaBio: O déficit projetado de até 15,2 milhões de CBIOs em 2035 deve encarecer o custo das distribuidoras e elevar o preço na bomba.
- Gargalo nas usinas: Apesar da alta capacidade instalada, a taxa histórica de utilização das usinas é de apenas 35%, somada à disputa de margem com a produção de açúcar.
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