O mercado de crédito no Brasil avança em ritmo moderado em 2026, projetando uma expansão de 8,9% na carteira total do sistema financeiro. Contudo, os números da mais recente Pesquisa Febraban de Economia Bancária revelam uma nítida divisão no setor. Enquanto os financiamentos direcionados por políticas públicas sustentam o crescimento, as linhas de crédito livre registram desaceleração diante da alta dos juros e da cautela das instituições financeiras.
A busca por garantias e a seletividade na concessão de recursos tornaram-se prioridades para os bancos. O movimento reflete o aumento das preocupações com a capacidade de pagamento das famílias e empresas em um ambiente econômico pressionado.
O contraste entre o crédito direcionado e as linhas livres
A projeção de crescimento de 11% no crédito direcionado impulsiona o desempenho geral do setor em 2026. Essa modalidade beneficia-se diretamente de programas governamentais voltados ao financiamento imobiliário e ao apoio a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).
Em contrapartida, o crédito livre, cujas taxas e condições são pactuadas abertamente entre instituições e clientes, deve registrar avanço de apenas 7,1%. A retração reflete o custo mais elevado das operações e a concorrência direta com as emissões no mercado de capitais:
- Carteira corporativa: O crédito livre para pessoas jurídicas apresenta estimativa de alta modesta de 3,5%, enquanto as linhas direcionadas para empresas podem saltar 13,4%.
- Carteira de pessoas físicas: Os financiamentos livres para consumidores tendem a desacelerar para 9,6%, contidos pelo elevado endividamento das famílias.
Alerta de inadimplência altera estratégia das instituições
A deterioração da capacidade de pagamento dos tomadores de recursos mudou o tom das projeções bancárias para o segundo semestre. A parcela de bancos que prevê aumento na inadimplência das famílias saltou de 38,1% em agosto para 65% em setembro.
O indicador de atrasos superiores a 90 dias na carteira livre deve encerrar o ano em 6,1%, registrando alta contínua quando comparado aos ciclos anteriores. Esse cenário é agravado pelo volume expressivo de negativados no país, que já atinge cerca de metade da população adulta, além do recorde de empresas com pendências financeiras.
Projeções para 2027 e pressão inflacionária
A perda de velocidade na concessão de crédito deve se estender ao próximo exercício, com estimativa de expansão de 7,4% para a carteira total em 2027. A cautela dos bancos permanece ancorada na deterioração das expectativas para a inflação, onde metade das instituições consultadas prevê o IPCA acima das metas estabelecidas.
Pontos relevantes
- Monitoramento do custo de capital: Avaliar a migração de dívidas da carteira livre para linhas com garantias ou incentivos governamentais.
- Gestão rigorosa do fluxo de caixa: Aumentar a margem de segurança operacional para enfrentar o período de juros elevados.
- Aproveitamento de programas de renegociação: Mapear oportunidades de alongamento de passivos com instituições financeiras.
- Diversificação de fontes de captação: Buscar alternativas de financiamento via mercado de capitais para otimizar taxas.
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