Abrainc aponta potencial bilionário do setor imobiliário, mas alerta para o impacto dos juros altos

O setor imobiliário brasileiro possui capacidade de movimentar cifras muito altas na próxima década, mas os juros altos representam uma barreira severa. A avaliação foi feita pelo presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França, durante evento realizado em São Paulo.

Segundo as projeções apresentadas pela entidade, o mercado de incorporação tem potencial para injetar R$ 8 trilhões na economia brasileira ao longo dos próximos dez anos. Contudo, o dirigente foi categórico ao apontar que o patamar atual da taxa básica de juros funciona como o principal entrave para destravar esse volume de capital.

O peso da Selic e o acesso ao crédito

Durante o encontro com lideranças políticas e empresariais, o executivo destacou que o custo do dinheiro sufoca tanto a atividade produtiva quanto o poder de compra das famílias. Com a taxa Selic elevada, o crédito imobiliário encarece e restringe o acesso da população à casa própria.

A entidade calculou o impacto direto da política monetária no consumo: cada queda de um ponto percentual na taxa de juros seria suficiente para inserir cerca de 1,3 milhão de novas famílias no mercado imobiliário brasileiro.

O cenário de restrição financeira também se reflete em outros indicadores sensíveis. França chamou a atenção para o recorde histórico de empresas em recuperação judicial no país. Também ressaltou os patamares elevados de inadimplência e endividamento das famílias, reflexos diretos do custo financeiro elevado.

Desafios estruturais: FGTS e déficit habitacional

Além da política de juros, o debate abordou a preservação de instrumentos tradicionais de fomento. A diretoria da Abrainc criticou propostas que flexibilizam o saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para usos diversos. O argumento é que a prática descapitaliza a principal fonte de recursos para a habitação popular.

O diagnóstico do setor aponta para um déficit habitacional projetado em 5,8 milhões de moradias para a próxima década. Para mitigar esse descompasso, a associação propôs a criação de um fundo específico de R$ 50 bilhões. O objetivo é destinar o fundo ao financiamento habitacional, além de ajustes regulatórios na reforma tributária em interlocução com a equipe econômica e a Receita Federal.

Nos bastidores políticos, representantes de diferentes correntes na disputa presidencial já teriam demonstrado abertura para absorver parte das demandas apresentadas pelo setor.

Pontos de observação para investidores e CFOs

A pressão exercida pelo setor imobiliário evidencia os limites que o aperto monetário impõe sobre a economia real e o consumo de massa. Para CFOs e investidores institucionais, o cenário exige cautela na alocação de recursos em companhias expostas ao mercado doméstico e ao crédito de longo prazo.

A reversão desse quadro depende diretamente de um ciclo consistente de flexibilização dos juros e de segurança jurídica nas regras de financiamento, fatores determinantes para destravar o potencial bilionário da construção civil e reanimar a cadeia industrial associada.

Foto: Divulgação/Abrainc