O desafio fiscal: a herança econômica e o nó orçamentário que aguardam o próximo presidente

O desafio fiscal é o maior gargalo que o próximo presidente irá enfrentar. O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 provocou forte alívio nos mercados. Com a vantagem conquistada nas urnas, o Ibovespa registrou alta expressiva e o dólar recuou, reduzindo temporariamente a pressão sobre os ativos de risco no país.

No entanto, a euforia financeira esbarra na realidade dura das contas públicas. Quem assumir o Palácio do Planalto em janeiro de 2027 herdará uma dívida pública em trajetória ascendente, estimada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em patamares próximos a 100% do Produto Interno Bruto (PIB).

A rigidez orçamentária e o peso dos gastos obrigatórios

O principal obstáculo para o próximo governo não reside apenas no volume total do endividamento, mas na extrema rigidez do Orçamento federal. Do total previsto para despesas primárias, a esmagadora maioria está engessada por gastos obrigatórios, como previdência, pessoal e pisos constitucionais de saúde e educação.

Na prática, sobra margem muito reduzida para o governo gerenciar a máquina pública ou destinar recursos a investimentos estruturantes. Essa compressão orçamentária é agravada pelo avanço das despesas indexadas e pelo peso expressivo dos subsídios e benefícios tributários concedidos a setores econômicos.

Analistas econômicos apontam que a dinâmica atual dos gastos públicos alimenta o déficit primário e força o Banco Central a manter a taxa Selic em patamares elevados. Com um dos maiores juros reais do mundo, o financiamento da dívida pública acaba competindo diretamente com o crédito privado, encarecendo o capital e desestimulando a expansão das empresas.

Ajuste fiscal: visões e divergências entre os candidatos

A reta final da corrida eleitoral exige que os candidatos detalhem como pretendem entregar o reequilíbrio fiscal necessário. As projeções de instituições independentes, como a Instituição Fiscal Independente (IFI), indicam que o cumprimento formal das metas exigirá forte contingenciamento de despesas logo no início do mandato.

As propostas em disputa revelam caminhos distintos. De um lado, a estratégia associada à oposição aposta em uma austeridade rigorosa, focada no corte direto de despesas públicas, desvinculações orçamentárias e revisão de subsídios. Do outro, a cartilha governista tende a privilegiar um ajuste mais gradual, preservando transferências de renda e o impacto social dos programas públicos.

Especialistas ressaltam que, independentemente da vertente vencedora, o próximo presidente precisará de forte capital político para aprovar reformas estruturais profundas. Sem enfrentar gargalos como a rigidez dos gastos obrigatórios e a previsibilidade institucional, o país continuará refém do prêmio de risco elevado.

O que esperar

A transição presidencial coloca o risco fiscal no centro das decisões estratégicas do mercado. O cenário exige monitoramento estrito da sustentabilidade orçamentária e da real disposição do próximo governo para implementar reformas estruturais.

A estabilização da trajetória da dívida e a moderação dos juros dependem diretamente de medidas concretas de contenção de despesas. Avaliar a firmeza dessas entregas será determinante para calibrar alocações de longo prazo e proteger os portfólios corporativos da volatilidade macroeconômica.

Foto: Portal Senado