O petróleo brasileiro alavancou as vendas para a Europa e marcou uma virada expressiva nas trocas comerciais, recolocando o bloco no centro da estratégia de exportação do país. Movido por essa forte demanda, o saldo comercial acumulado com os europeus passou de um déficit de US$ 1,0 bilhão em 2025 para um superávit de US$ 6,1 bilhões entre janeiro e setembro de 2026.
Essa reviravolta de US$ 7,1 bilhões representou a maior contribuição individual de um parceiro comercial para o crescimento da balança do país no ano.
De acordo com dados do indicador Icomex, elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a participação da União Europeia nas exportações brasileiras saltou de 14,2% para 20,2% apenas em setembro. A alta no valor total das vendas alcançou 60,1%, sustentada por um aumento de 42,2% no volume embarcado e por um ganho de 12,6% nos preços médios praticados.
Geopolítica global e o avanço do petróleo brasileiro
O motor por trás desse crescimento meteórico foi a commodity energética. As vendas de petróleo bruto para os países europeus deram um salto de 139,0% em valor, passando a responder por mais de um terço de tudo o que o Brasil envia ao bloco.
Analistas da FGV ressaltam que o fenômeno não decorre diretamente da entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Pelo contrário, o movimento reflete o realinhamento da geopolítica energética global:
- Sanções e restrições à Rússia: Países europeus continuam reduzindo suas compras de combustíveis russos, buscando fornecedores em regiões de menor risco geopolítico.
- Tensão no Oriente Médio: Os desdobramentos de conflitos no Irã mantêm a pressão sobre os preços globais de cotação e redirecionam rotas de abastecimento para produtores das Américas.
- Insumos industriais e agrícolas: Além do petróleo, o minério de cobre registrou alta de 226,0% e o farelo de soja subiu 69,8% nas vendas à Europa, enquanto as importações vindas do bloco caíram 8,7%.
Balança comercial atinge marco histórico no acumulado do ano
O avanço no mercado europeu ajudou a alavancar o superávit comercial total do Brasil para US$ 7,7 bilhões em setembro. Com isso, o saldo acumulado nos primeiros nove meses de 2026 atingiu US$ 62,4 bilhões. O valor supera o mesmo período anterior em US$ 16,1 bilhões.
No cenário amplo das commodities, o petróleo empatou com a soja no topo das exportações do ano. Cada produto representou 15,1% das vendas totais. Contudo, a energia apresentou ritmo de expansão bem mais acelerado, crescendo 28,6% em valor frente a 14,9% do grão.
Em relação a outros grandes parceiros, o Brasil expandiu seu superávit com a China em US$ 3,8 bilhões e reduziu o saldo negativo com os Estados Unidos em US$ 0,5 bilhão. Por outro lado, a balança comercial com a Argentina recuou US$ 3,0 bilhões no mesmo intervalo.
Pontos relevantes
As profundas alterações na geopolítica do petróleo e no comércio internacional exigem acompanhamento atento por parte de executivos, investidores e gestores de risco. Diante desse cenário de reconfiguração de mercado, seguem algumas observações estratégicas:
- Monitoramento de rotas de suprimento: Acompanhamento da permanência das sanções à energia russa. Essa análise permite mensurar a sustentabilidade do preço do petróleo brasileiro na Europa.
- Diversificação da pauta de commodities: Avaliação do fortalecimento do minério de cobre e do farelo de soja. Esses produtos complementam a receita cambial durante a volatilidade dos grãos.
- Ajuste na gestão de exposição cambial: Observação da expansão dos saldos positivos com a Europa e a China. Assim, é possível calibrar estratégias de hedge e projeções de caixa.
Com informações do Estadão • Foto: Magnific