Raio-X do 1º tri: Juros altos e cenário externo sufocam balanços das empresas

A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 acendeu o sinal de alerta no mercado financeiro

Na atual temporada de balanços do 1º trimestre, um levantamento do BTG Pactual revelou números que acenderam o alerta no mercado: 29% das companhias listadas na Bolsa divulgaram resultados fracos, superando os 27% do período anterior.

O diagnóstico geral aponta para duas forças principais: a persistência dos juros altos no cenário doméstico juntamente com a deterioração do ambiente macroeconômico global.

O peso do crédito e da alavancagem

Com a taxa Selic em patamares elevados, o custo financeiro das empresas disparou. Em outras palavras, esse fator pune severamente as companhias com maior nível de endividamento (alavancagem):

  • Natura (NATU3): Fechou o trimestre com dívida de R$ 4,042 bilhões, atingindo uma alavancagem de 2,12 vezes a relação dívida líquida/Ebitda.
  • CVC (CVCB3): Mesmo com um índice menor (0,5 vez), o patamar gerou desconforto em analistas devido à natureza do setor de turismo.
  • Klabin (KLBN11): Sofreu com a queima de quase R$ 500 milhões de caixa no trimestre, sem conseguir crescer o Ebitda para reduzir a pressão da dívida.

Gigantes sob pressão externa (China e Commodities)

Nem mesmo as blue chips — as ações mais consolidadas do mercado — escaparam ilesas do ambiente global adverso:

  • Vale (VALE3): A ação recuou 6% após o balanço. Além de chuvas sazonais, a mineradora enfrenta o freio econômico da China (perda de força contínua do PIB chinês) e o aumento de custos operacionais causados pelo barril do petróleo acima de US$ 90.
  • Suzano (SUZB3): Sentiu o impacto da queda estrutural do dólar (mais próximo ou abaixo de R$ 5), o que reduziu as margens de lucro das exportações de celulose, elevando o custo por tonelada.
  • Embraer (EMBJ3): Teve o balanço impactado em US$ 12 milhões devido às novas tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos na divisão de aviação executiva.
  • JBS (JBSS3): Sofreu com o ciclo de alta da carne bovina nos EUA, que encareceu a matéria-prima e espremeu as margens operacionais da gigante de proteína animal.

Inadimplência e Varejo de Massa

No front interno, os efeitos colaterais dos juros altos batem direto no consumo e no sistema de crédito:

  • Banco do Brasil (BBAS3): O lucro líquido de R$ 3,4 bilhões decepcionou o mercado. O principal vilão foi a alta inadimplência no agronegócio. Por consequência, travou a reestruturação das carteiras de crédito do banco e forçou a revisão do guidance para baixo.
  • Varejo Financiado: Empresas focadas em consumo popular, como Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3), continuam patinando. O endividamento das famílias inibe compras de bens duráveis (móveis e eletrodomésticos) que dependem de financiamento.

Por outro lado: O varejo voltado à alta renda mostrou resiliência, comprovando que a crise atual atinge de forma seletiva quem mais depende de crédito barato.

Imagem de capa: B3